quarta-feira, 16 de junho de 2010

James, não confie muito nisso.


Desliguei o telefone.
Fiquei pensando no que acabara de descobrir.
Você percebe, eu sabia que não era assim tão ruim quanto James me apresentara. E, de fato, não era apenas porque eu não queria acreditar que fosse uma pessoa ruim. Embora eu não quisesse acreditar que fosse uma pessoa ruim, mas.. ora, você sabe o que quero dizer.
Tive mesmo a sensação de que James mentia pra mim ou, no mínimo, exagerava muito, quando me disse que mulher horrorosa, infantil, egoísta sem consideração eu fora durante todo o nosso casamento.
Mas eu não conseguia entender qual o motivo de suas mentiras.
Minha sensação era de que ele tentara reduzir meu tamanho até o tamanho que lhe conviesse- ao dizer que eu fora uma pessoa assim.
Não gostara da minha auto-confiança. Assustara-se com ela. Assim, de uma maneira maldosa e cínica, decidira deixar-me inteiramente abalada, para que eu me tornasse dependente dele.
Mas que filho da puta.
Sabe acho que o odiei menos quando descobri que ele estava fazendo sexo com Denise. O que ele fizera agora constituía um tipo pior de traição.

não é porque a comida está horrível.


A maneira como reajo à comida, quando estou perto de um homem, é um barômetro seguro de como me sinto em relação a ele. Se não puder comer, significa que estou louca por ele.
Quando consigo tomar suco de laranja e algumas torradas de manhã, é o Fim do Começo.
E na ocasião em que termino de comer a comida deixada no prato dele, já acabou tudo.
Isso, ou então me caso com ele.








Bem, o modelo era esse, até aquele momento.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

vagarosamente, a sanidade voltou.

A imensa camisola girava em torno de mim, ampla e agradavelmente, enquanto eu descia as escadas com as luzes apagadas. O telefone estava no andar de baixo, no hall. A única luz era a do poste na frente da casa, brilhando através dos vidros opala da porta de entrada.

Comecei a discar o número do meu apartamento em Londres. O ruído da discagem ecoava no silêncio. Soava como disparos de fuzil na quietude da sala. "Meu Deus", pensei, abalada, "os McLoughlin três casas adiante vão aparecer para se queixar do barulho."

Houve alguns cliques, enquanto o telefone em Dublin fazia a conexão com outro, de um apartamento vazio, numa cidade a 800 quilômetros de distância.

Deixei que tocasse, talvez umas cem vezes. Poderiam ser mil vezes.

O telefone tocava sem parar, chamando inutilmente alguém num apartamento frio, escuro e vazio. Pude imaginar o telefone tocando sem parar e a cama macia, lisa, onde ninguem dormia, sombras da janela lançadas em cima dela, enquanto as luzes da rua jorravam para dentro através das cortinas abertas- abertas porque não havia ninguem lá para fecha-las.

Mesmo assim, deixei-o tocar sem parar. E, lentamente, a esperança me abandonou.
James não atendia.
Porque James não estava lá.
James estava em outro apartamento. Em outra cama.
Com outra mulher.

sábado, 12 de junho de 2010

Olá, Claire.


"Quando ouvia falar de pessoas que sofriam desastres cumulativos (por exemplo, um acidente de automóvel, perder o emprego e pegar o namorado na cama com a irmã, tudo numa única semana), pensava que a culpa era dessas pessoas. Bem, não exatamente culpa. Mas, se as pessoas se comportassem como vítimas, tornar-se-iam vítimas. Se esperasse que o pior acontecesse, então ele invariavelmente aconteceria.

Via, agora, como estava errada. Algumas vezes as pessoas não se apresentam voluntariamente para serem vítimas, mas se tornam vítimas, de qualquer jeito. Certamente não era minha culpa que meu marido achasse que se apaixonara por outra pessoa. Não esperava que acontecesse e certamente não queria que contecesse. Mas aconteceu.

Soube, então, que a vida não respeita circunstâncias. A força que atira em nós os desastres não diz "Bem, não darei a ela aquele caroço no seio antes de pelo menos um ano. É melhor deixar que se recupere primeiro da morte da mãe". A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade.

Percebi que ninguém está imune a síndrome do desastre cumulativo. Não que eu pensasse que ter um bebê fosse um desastre. Mas certamente ele não deveria ter vindo em circunstâncias tão tumultuadas.

Eu acreditava controlar inteiramente a minha vida e, Deus me perdoe, se alguma coisa chegasse a dar errado comigo mesma e com James, eu seria capaz de dedicar todo o meu tempo e minha energia para resolver a situação. Não esperava exatamente ser abandonada menos de 24 horas depois de dar à luz meu primeiro filho, quando meus níveis de energia estavam mais baixos do que nunca e os de vulnerabilidade, mais altos do que nunca.



Sem falar em como eu estava obviamente gorda naquele momento."

quinta-feira, 10 de junho de 2010

uninvited


Como qualquer uma estaria, estou lisonjeada com sua fascinação por mim. Como qualquer mulher de sangue quente, eu sempre quis um objeto para desejar. Mas você não é permitido, você é inacessível, um infeliz deslize.
Deve ser estranhamente excitante, assistir o inabalável sofrendo; deve ser meio difícil assistir o pastor precisar de ensinamento.
Como um território não mapeado eu devo parecer muito intrigante.
Você, você fala do meu amor como se já tivesse experimentado amor como o meu antes. Mas isso não é permitido, você é inacessível, um infeliz deslize.
Não acho que você seja indigno, preciso de um tempo para pensar.